Glória Fácil...

...para Ana Sá Lopes (asl), Nuno Simas (ns) e João Pedro Henriques (JPH). Sobre tudo.[Correio para gfacil@gmail.com]

quinta-feira, maio 27

Como se cozinha um jogador de futebol?

Ontem, após o jogo, ouvi uma senhora membro do povo, lá no Porto, dizer na rádio:

- Até os comemos, de cebolada!!!!!!

Depois soube que uma outra senhora membro do povo, também do Porto, teria dito:

- Até os comemos, de escabeche!!!!!

Vejamos: eu sei que pode não haver contradição entre uma coisa e outra (o escabeche e a cebolada). Mas também pode haver: nunca comi bifinhos de escabeche mas já comi bifinhos de cebolada (cozinho-os, aliás, e são de rebolar e chorar por mais).

Por isso, e em nome do rigor linguístico, que prezo, pergunto: é de escabeche ou é de cebolada? No Porto, como se comem jogadores de futebol?
|| JPH, 16:21 || link || (0) comments |

quarta-feira, maio 26

Nós, os outros e Michael Moore

Parece que o novo documentário do sr. Moore é uma trampa. À cautela, acredito. Parece que está a ser muito complicada a sua distribuição nos EUA. Também acredito. Parece que isto é o "mercado" a funcionar. Pois que seja.

O que sei é que isto é muito mau sinal sobre a saúde democrática desta América - a de Bush, claro. E sei também que é pouco "operativo" (quer dizer: não dá jeito) garantir que ser anti-Bush não é ser anti-EUA. Enfim, sei isto tudo. E mais uma coisa: que cada vez me sinto mais próximo da Turquia do que desta América. A culpa, garanto, não é minha. Nem sequer da Turquia.

"Nós" e os "outros"? Sim, admito o conceito. Já não admito que isto se resuma só a que os "nós" seja igualizado ao ocidente civilizado, democrático, cristão, e que os "outros" sejam só os do fundamentalismo islâmico.

A diferença, de facto, a diferença "operativa", é entre a tolerância ("nós") e intolerância (os "outros"). E, sendo assim, o que sinto é que esta América está cada vez mais próxima dos "outros". Por mim, juro que estou no sítio onde sempre estive. Eles é que se afastaram. E, claro está afastaram-se em direcção àqueles que combatem. Como pode isto ter acontecido? Onde irá parar?
|| JPH, 12:40 || link || (0) comments |

domingo, maio 23

O que é que se passa aqui?

JPH, quando eu regressar temos de conversar sobre o estilo "maxmen" do teu último "post"...
Beijos
|| mjo, 23:40 || link || (0) comments |

sábado, maio 22

A vida sexual de Letizia e Felipe

Sim, sim, eu até acredito que estejam apaixonados. Parece, pelo menos. Agora segue-se a vida. Dentro de dois ou três anos (talvez menos, talvez mais) Letizia há-de engravidar. Nalguns casais a gravidez é óptima para a vida sexual. Direi mesmo: maravilhosa, inesquecível. Aumenta o desejo feminino, a sensibilidade à carícia. E o homem, se tiver para aí virado, corresponde. Isto pode ser assim quase, quase até ao fim.

Mas depois do rebento nascido, a coisa muda. Enfim, a loja fecha. Dizem-me que é uma questão hormonal e eu acredito. Às vezes a loja fecha por meses, noutras por anos. Fecha ela - mas não fecha ele.

Ele, no caso, chama-se Felipe e é um homem bonito, além de herdeiro da Coroa espanhola, o que o torna ainda mais bonito. Terá tendência, inevitavelmente, a procurar o sustento noutras paragens, que não lhe faltarão. Talvez resista, talvez não. Se não resistir, resta saber como será quando a loja reabrir.

Talvez nessa altura se aperceba que dificilmente as coisas poderão voltar a ser o que foram antes do rebento nascer. E se decida por continuar a frequentar as tais outras paragens. Um dia Letizia saberá, claro. Se for uma mulher de armas, como parece ser, manda o príncipe à merda.

Mandará? Talvez sim, talvez não. Eu explico: Letizia assinou uma convenção pré-nupcial pela qual, em caso de divórcio, desistirá da educação das suas crianças. Se um dia quiser mandar o princípe à merda por estar farta das traições dele, isso implicará perder o dia-a-dia do crescimento dos filhos. Ela para um lado da vida, eles para o outro.

Dizem-me: ninguém a obrigou a casar com o Felipe. Ela sabia ao que ia. Muito bem, reconheço o argumento. Admito que ela tenha ponderado. Se calhar achou que é possível um amor que dure até que a morte o separe, sem traições no caminho. (Eu, pelo menos, acredito que isso é possível. Se eu acredito, é possível que ela também acredite: mero cálculo probabilístico.)

Enfim: reconheço que a cerimónia foi bonita (até porque a nossa Primeira Dama revelou muito bom senso ao desistir daquela roupinha verde-não-sei-quê que o sr. Augustus lhe desenhara). Repito: a cerimónia foi bonita. Mas a mim, sinceramente, não me comoveu nem sequer me enterneceu.

Uma núvem negríssima paira sobre a vida daquela mulher, Letizia. Merecia melhor sorte.
|| JPH, 16:31 || link || (10) comments |

sexta-feira, maio 21

"Fantasmas ao espelho" (post dois em um)

Queixa-se a dirigente socialista Ana Gomes que anda "há mais de um mês, diariamente" em voltas "pelo país, em debates e acções de pré-campanha" (para as eleições europeias, alegadamente). E isto, lamentavelmente, "sem cobertura dos media, claro, como mandam os interesses que pagam..." (cabala strikes again...).

Ele há opiniões e há opiniães. O que sei de ciência certa é que os amigos são para as ocasiões. Por isso servem-me os desabafos de Ana Gomes para propagandear o recente lançamento de um livro de um grande amigo, o sr.professor (e ex-jornalista) Joaquim Trigo de Negreiros, intitulado "Fantasmas ao Espelho" (edições Minerva Coimbra). Trata-se de uma tese de mestrado sobre os "modos de auto-representação dos jornalistas" em que a amostra foi a redacção aqui do farol da imprensa ocidental, livre e democrática.

Perguntam-me:

- Ouve lá, tás doido? Que raio tem a ver a Ana Gomes com os "Fantasmas ao espelho" ó-lá-que-é?
- Tenta visualizar um fantasma ao espelho.
- ...um fantasma ao espelho não se vê, não se consegue ver...
- Percebes agora?
- ...Sim...Deixaste outra vez de tomar as gotas?
|| JPH, 14:34 || link || (0) comments |

PREC revisitado

Faria algum sentido lançar hoje, trinta anos passados, um movimento em defesa do esclarecimento rigoroso e absoluto sobre o quem, como e porquê da rede bombista de extrema-direita que assolou Portugal no PREC?

É óbvio que não. Trinta anos passados é impossível esclarecer toda a verdade - e, por exemplo, estabelecer, sem sombra para qualquer dúvidas, responsabilidades criminais, as quais, além do mais, até devem estar mais que prescritas. Fazer-se História é uma coisa. Cavalgá-la para processos políticos é outra, completamente diferente - além de que, quando a História se torna instrumento de combate político, primeira vítima é a verdade dos factos, que é o que, no final de contas, interessa (ou não?).

Sendo assim, porquê esta ânsia de revisitar o passado? Simples: não havendo no presente instrumentos para defender posições do presente sobre temas do presente (Abu Ghraib, por exemplo), vai-se ao passado buscá-los.

Quem o faz só o faz porque, evidentemente, acha inteiramente correcto fazê-lo. No entanto, já não acha legítimo que se "usem" as torturas de Abu Ghraib (um facto do presente) de "de forma puramente instrumental para atacar a intervenção americana" (outro facto do presente).

Quem o faz nem se apercebe que ao estar a invocar o passado (o tal "relatório das sevícias") no contexto de uma discussão sobre o presente (Abu Ghraib) está, precisamente, a actuar no mesmo terreno argumentativo aos tais que são alvo da sua crítica. Querendo ser diferente torna-se ainda mais igual - e com isso legitima (dá razão, cauciona) aqueles de quem pretende ser diferente.

Importa manter a serenidade. Isto não é grave nem dramático: é apenas pobre, confrangedoramente pobre. E pega-se, ainda por cima. Mas, verdade se diga, aqueles a quem este tipo de estratégias convém, já lá tinham chegado muito antes (Maggiolo Gouveia, Isabel do Carmo...). O "mérito" primordial é deles. O seu a seu dono.
|| JPH, 12:45 || link || (0) comments |

quarta-feira, maio 19

Boas companhias

José Pacheco Pereira deve sentir-se orgulhoso. Tem de se sentir orgulhoso. Recentemente - e no contexto da discussão sobre as torturas em Abu Ghraib - recordou um "Relatório da Comissão de Averiguação de Violências sobre Presos sujeitos às Autoridades Militares", datado de 1976. Dias depois, o Blog do Caldas - que é um blogue oficial do CDS/PP - escreveu:

"A verdade é que esta recordação dá uma vez mais razão à linha de distância que o CDS e a restante direita democrática sempre traçaram em relação aos comportamentos aviltantes de alguns revolucionários de trazer por casa. Como ainda recentemente disse o líder do CDS/PP [a propósito da condecoração de Isabel do Carmo pelo PR], Paulo Portas, não damos, nem daremos nunca cobertura a bombistas e torcionários afins. Porque podemos perdoar, mas não se pode esquecer."

Amigos para sempre?
|| JPH, 17:34 || link || (0) comments |

terça-feira, maio 18

"Secos & Molhados - A Vingança"

Lisboa, 18 Mai (Lusa) - O ministro da Administração Interna, Figueiredo Lopes, apanhou um banho forçado numa demonstração de canhões de água que hoje foram entregues à PSP e à GNR com vista a reforçar a segurança durante o Euro´2004.
Figueiredo Lopes, que esteve na entrega oficial de meios às forças de segurança para o Campeonato Europeu de Futebol, que começa a 12 de Junho, ficou todo molhado depois da demonstração dos canhões de água, cujo jacto apanhou também na trajectória o ministro-adjunto do primeiro-ministro, José Luís Arnault.
Habitualmente os canhões de água - dotados de um jacto de água bastante forte - são utilizados pelas forças de segurança para dispersar multidões.
Durante a cerimónia de entrega do material, o ministro referiu a importância da modernização das forças de segurança, que, disse, registavam “carências enormes” e que tem sido desenvolvida nos dois últimos anos.


Isto sim é autoridade do Estado...
|| JPH, 16:47 || link || (0) comments |

segunda-feira, maio 17

"O Ícone" ou a falta de inteligência em movimento

Começou em Abu Ghraib. Seguiu para o museu de Bagdad. Daí para o Vietname. Logo a seguir Berlim. Mais tarde a Catalunha. Depois o País Basco. E, claro, Madrid. No final, regresso ao Vietname. E, finalmente, de novo Abu Ghraib. Remata-se esta louca viagem com o processozinho de intenções acanalhado do costume: "As imagens de Abu Ghraib são um símbolo do que não pode acontecer em guerra alguma. Para uns [bolds da minha autoria]. Ou nesta guerra. Para outros. Aqueles mesmos que nunca se interessaram pelos meninos do Vietname assim que os últimos helicópteros americanos partiram. Os mesmos que nunca mais se interessariam pelos cárceres do Iraque, caso a coligação se retirasse.

1. De quem fala Helena Matos? Quem são “aqueles”? Ou “os mesmos”? Ou os “uns” e os “outros”? Haverá alguma figura nacional que possa, nas suas vastas e largas costas, ser o destino simbólico destas críticas? É do dr. Louçã que fala? Ou está antes a pensar numa figura internacional, tipo Shomsky? Ou em ambos? Não se sabe. Nunca o diz.

2. Esta técnica – já o disse noutras ocasiões e volto a repeti-lo, sempre que necessário - tem um nome: cobardia. A cobardia é uma das marcas do desespero argumentativo. Entrincheirado em posições de suposta superioridade moral, dispara-se em todas as direcções esperando que, ao atingir muita gente, se atinja também o alvo principal. Evita-se, por norma, o debate frontal. É cansativo. E pode-se perder.

3. Há ainda outra coisa que me espanta no artigo de Helena Matos (HM): revela uma profunda falta de inteligência. A articulista tenta sacudir o óbvio embaraço dos acontecimentos de Abu Ghraib invocando factos presentes e passados ocorridos nos mais variados sítios. Baralha tudo numa salada delirante e azeitada pelo insano esforço de reduzir os factos à mera condição de “ícones” – quando antes disso foram apenas factos-factos-e-só-factos, terrivelmente concretos e palpáveis. Relativiza, portanto. E, com isso, legitima todos os que, do lado oposto da sua barricada, procederam de igual forma para justificarem o 11 de Setembro ou o 11 de Março ou o terrorismo em geral.

4. A ausência de inteligência espanta ainda mais quando se verifica que é possível estar a favor da invasão do Iraque e conseguir, perante os acontecimentos de Abu Ghraib, manter uma posição de extrema sensatez. Veja-se, por exemplo, o artigo de Vasco Rato no último O Independente (link indisponível). Eis um excerto: “Tratando-se de uma ocupação que visa a democratização do Iraque, era necessário que Rumsfeld tivesse dado instruções claras sobre a conduta dos militares americanos. Cuidados adicionais deveriam ter sido tomados para evitar qualquer tipo de abuso desta natureza. Porque abusos acontecem em ambientes de guerra, é impossível dizer que não existia essa possibilidade no Iraque. Uma vez que as torturas aconteceram temos de concluir que Rumsfeld não antecipou essa eventualidade. Dito de outra forma, foi omisso quanto às suas responsabilidades. Foi negligente. Por essa razão deveria ser demitido.

5. Para ter uma vaga ideia de que como se exerce a lucidez – ou seja, de como não vale a pena andar a tapar o sol com a peneira – ler também o artigo de Vasco Pulido Valente (um perigoso esquerdista, como se sabe…) na edição de sábado do Diário de Notícias. Cito: “A tortura de prisioneiros de guerra (e de outros que não o eram) no Iraque foi apresentada como ‘não americana’ pelo Presidente Bush e, na Europa, como efeito directo da política de Bush. (…) Tudo isto não passa evidentemente de uma conversa absurda. A América é uma sociedade violenta. Uma sociedade em que a violência está no dia-a-dia e se vive no dia-a-dia, como não está e não se vive em Portugal, em França ou em Itália. (…) A barbárie da cadeia de Abu Ghraib só podia ser americana. (…) Abu Ghraib é um sintoma; e um aviso. Não é uma surpresa.

6. Chega ou é preciso fazer um boneco?
|| JPH, 18:05 || link || (0) comments |

Aviso

Mais logo, post longo sobre "O Ícone", artigo de Helena Matos no PÚBLICO de sábado. Teorização sobre como é possível - mas não foi, infelizmente, o caso no referido artigo - conciliar a inteligência com a defesa da invasão.
|| JPH, 15:11 || link || (0) comments |

"Santo António Champalimaud"

A Abébia Vadia, blogue que há muito deveria ter merecido aqui uma referência, chama-nos a atenção para o melhor artigo da imprensa dominical,assinado por Mário Mesquita e intitulado "Santo António Champalimaud". Antes que o link se deslink, eis alguns parágrafos, rigorosamente grátis:

"Confesso a minha impreparação para avaliar as possibilidades de sucesso de uma eventual proposta de beatificação do industrial. Não tive ocasião de conhecer a pessoa, nem estudei suficientemente o perfil. Pior: pela leitura das múltiplas páginas publicadas após a sua morte verifiquei que a maior parte das minhas ideias a respeito do famoso capitalista, quiçá provenientes de rumores ou de preconceitos ideológicos, eram falsas. "Mea culpa".

Aos olhos de muitas pessoas da minha geração, Chapalimaud representava, o mais típico industrial da era salazarista, mandão e prepotente, que construíra o seu império cimenteiro e bancário à sombra da protecção que lhe conferia a legislação proteccionista do "condicionamento industrial" e os instrumentos ditatoriais do regime, desde a ausência de liberdade sindical e do direito à greve até à prestimosa acção da polícia política na repressão dos movimentos sindicalistas.

As hagiografias jornalísticas desmentem esta visão. Champalimaud não era adepto de nenhum Governo, teria sido, sempre, um homem do "contra". Manifestava, claro está, as suas preferências, que se exprimiam, a fazer fé nas narrativas, mais pela negativa do que pela positiva. Alguém sustenta mesmo que desafiou dois regimes. Admirava o ditador Salazar e detestava Marcelo Caetano, que pretendia liberalizar o regime. Abominava, naturalmente, o 25 de Abril, em seu entender "a maior desgraça da História de Portugal".


De facto...a hagiografia em relação a Champalimaud que povoou grande parte dos escritos da última semana é mais uma prova, indubitável, do avassalador domínio da esquerda nas mais influentes redacções do país. Nem percebo como ninguém entendeu isto antes de mim. Devem andar a dormir.
|| JPH, 13:42 || link || (0) comments |

Rumsfeld

Sobre a alegada responsabilidade directa de Donald Rumsfeld nos acontecimentos da prisão de Abu Ghraib é ler este artigo na New Yorker, assinado por Seymour M. Hersh e intitulado The Gray Zone. Transcrevo, de graça, os dois primeiros parágrafos, para ficarem com uma ideia:

"The roots of the Abu Ghraib prison scandal lie not in the criminal inclinations of a few Army reservists but in a decision, approved last year by Secretary of Defense Donald Rumsfeld, to expand a highly secret operation, which had been focussed on the hunt for Al Qaeda, to the interrogation of prisoners in Iraq. Rumsfeld’s decision embittered the American intelligence community, damaged the effectiveness of élite combat units, and hurt America’s prospects in the war on terror.

According to interviews with several past and present American intelligence officials, the Pentagon’s operation, known inside the intelligence community by several code words, including Copper Green, encouraged physical coercion and sexual humiliation of Iraqi prisoners in an effort to generate more intelligence about the growing insurgency in Iraq. A senior C.I.A. official, in confirming the details of this account last week, said that the operation stemmed from Rumsfeld’s long-standing desire to wrest control of America’s clandestine and paramilitary operations from the C.I.A.
"

Será verdade? Será mentira? Não sei. Ou melhor, sei o seguinte: a New Yorker tem liderado a informação nesta matéria. Não sendo a revista uma bíblia - para mim nada é uma bíblia - também não é conhecida por pôr o pé em ramo verde. A ser verdade, torna-se inteiramente legítima a pergunta: até que ponto esta história chega ao sr. Bush? Mas, se não for, há uma verdade que me parece incontornável: o sr. Rumsfeld já se devia ter demitido. A responsabilidade política efectiva-se por duas vias: ou a responsabilidade directa nos casos (o que, lendo a New Yorker, parece ser o caso); ou, não existindo essa responsabilidade directa, pela gravidade do ocorrido sob a alçada de um determinado responsável político.

Muito mais haverá para dizer sobre o debate público da questão iraquiana em próximos posts.
|| JPH, 12:44 || link || (0) comments |

quinta-feira, maio 13

A luz de Angra

Não gostei de Angra, às primeiras. Quase nunca gostei de nada às primeiras, os meus amores são os meus hábitos. A Praça Velha, à primeira, foi uma provinciana banalidade no seu desconsolo nocturno. Achei-me muito insensível a Angra toda, muito arrumadinha, tudo no sítio mas de costas para o mar.
A indiferença dos dias parou naquele em que a luz irrompeu com uma violência encantatória e percebi enfim qual era a luz da Terceira. Há uma luz na Terceira que não existe em mais nenhuma ilha dos Açores, em nenhum outro lugar a vi, e essa luz, mesmo na Terceira, é muito rara: apanhei-a no Outono de 1992, no Outono de 1995 e, no ano passado, em Junho. Em Julho voltei e em nenhum desses dias a luz apareceu.
Num desses dias de luz, subia e descia a rua do Galo em passo sempre muito rápido um homem muito belo. Nos seus olhos, azuis como o porto de São Mateus, a luz fazia um reflexo fantasmagórico: segui o homem de olhos azuis pela rua do Galo acima, e junto à igreja da Conceição parou, e revelou-se Jácome de Bruges, o povoador da Terceira, ou o seu fantasma. Jácome de Bruges, como se sabe, nunca morreu: os livros antigos falam do seu desaparecimento, mas o corpo nunca foi encontrado.
Só quando me habituei à luz da Terceira, e ao irromper, nos dias que amanhecem naquela luz encantatória, do fantasma de Jácome de Bruges, é que aprendi a amá-la, a Angra. Os meus amores são sempre hábitos.
Quando Margarida Dutra, convidada para um lançamento do Mau Tempo do Canal em Angra, me desafiou a ir com ela – Margarida não gosta de viajar sozinha e inventou um séquito para a escoltar até à livraria – disse que sim, na esperança de que, no dia marcado, aparecesse a luz. Nessa manhã, muito cedo, Angra ainda estava só meia acordada e, numa volta entre a rua da Palha e o Pátio da Alfândega, ela apareceu, brutal e atordoadora como sempre. Mais tarde, há tantos anos que eu já o sei, o fantasma de Jácome de Bruges assombrar-me-à como é hábito.
|| asl, 14:27 || link || (0) comments |

quarta-feira, maio 12

Os alienados

Aqui há dias, no inicío de uma polémica com Vasco Rato (VR), escrevi: "A boçalidade argumentativa permite ainda aos seus autores manterem uma razoável dose de alheamento face a uma realidade no terreno que lhes é profundamente desconfortável porque, entre outros factores, sabem ser bastante responsáveis por ela."

Agora o que me interessa não é nem VR (que esteve muito bem na questão das torturas no Iraque, defendendo que Rumsfeld se devia demitir), nem a "boçalidade argumentativa" mas sim o problema do "alheamento da realidade" que, cada vez mais se sente nos defensores da invasão do Iraque.

Quando se vê que a resposta à questão das torturas passa, na parte mais volumosas dos argumentos, por invocar:
a) actos alegadamente praticados pelo Maj. Tomé em 1975;
b) a prática da tortura em várias ditaduras;
c) a selectividade da indignação jornalística face a vários conflitos por esse mundo fora (Iraque, Cuba, Zimbabwe, Turquemenistão, Bangladesh, China, Eritreia, Haiti, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Rússia;
d) etc, etc, etc

percebe-se claramente que a lógica argumentativa entrou num esquema de permanente fuga para a frente - isto é, fuga da realidade. O objectivo, obviamente, é nunca debater. Isto já só anda, com conversas destas, no campo do tiroteio e nada mais. Em juridiquês isto tem um nome: litigância de má-fé.
|| JPH, 12:59 || link || (0) comments |

Blog parlamentar

Eu, que passo os dias a cirandar pelo Parlamento, tive de saber pela Bloguítica que já existe um blog parlamentar oficial. Evidentemente que o deputado mais cibernauta de sempre, José Magalhães (PS), pegou na bola e ninguém lha tira. Espero que isso aconteça, porque quanto mais debate melhor.
|| JPH, 12:40 || link || (1) comments |

terça-feira, maio 11

é tão bom ler este blog

É só para dizer que gosto cada vez mais deste blog
|| mjo, 22:04 || link || (0) comments |

José Mário Branco

Independentemente do som, do Fausto (já ouvi diversas versões sobre o que aconteceu, mas não vale a pena escrever sobre isso) e do calor da sala (e etc, etc), o concerto foi lindo, lindo!
|| mjo, 19:10 || link || (0) comments |

o que é que se passa?

Operações de cosmética em muitos dos blogs que leio quase todos os dias e até a página do "blogger" mudou de cara. Fiquei longe do computador apenas três dias e agora parece que já nem reconheço estes lugares.
|| mjo, 19:04 || link || (0) comments |

segunda-feira, maio 10

Lesses tu blogues

Lesses tu blogues e naturalmente a minha adrenalina disparava, vencia este cansaço que hoje me deixa ágrafa
|| asl, 22:37 || link || (0) comments |

Almanaque do Chico


Almanaque
Chico Buarque/1981





Ô menina vai ver nesse almanaque como é que isso tudo começou
Diz quem é que marcava o tique-taque e a ampulheta do tempo disparou
Se mamava de sabe lá que teta o primeiro bezerro que berrou
Me responde, por favor
Pra onde vai o meu amor
Quando o amor acaba

Quem penava no sol a vida inteira, como é que a moleira não rachou
Me diz, me diz
Quem tapava esse sol com a peneira e quem foi que a peneira esfuracou
Quem pintou a bandeira brasileira que tinha tanto lápis de cor
Me responde por favor
Pra onde vai o meu amor
Quando o amor acaba

Diz quem foi que fez o primeiro teto que o projeto não desmoronou
Quem foi esse pedreiro, esse arquiteto, e o valente primeiro morador
Diz quem foi que inventou o analfabeto e ensinou o alfabeto ao professor
Me responde por favor
Pra onde vai o meu amor
Quando o amor acaba

Quem é que sabe o signo do capeta, o ascendente de Deus Nosso Senhor
Quem não fez a patente da espoleta explodir na gaveta do inventor
Quem tava no volante do planeta que o meu continente capotou
Me responde por favor
Pra onde vai o meu amor
Quando o amor acaba

Vê se tem no almanaque, essa menina, como é que termina um grande amor
Se adianta tomar uma aspirina ou se bate na quina aquela dor
Se é chover o ano inteiro chuva fina ou se é como cair o elevador
Me responde por favor
Pra que tudo começou
Quando tudo acaba



|| asl, 15:52 || link || (2) comments |

Coisas simples

Dona Pimentinha, produto natural dos Açores, pimenta moída da Lagoa, ingredientes pimenta moída, E210, sal, peso aproximado 860 gramas. Acabadinha de chegar de São Miguel.
|| asl, 15:16 || link || (0) comments |

Correspondência "acidental"

São devidos vários comentários ao texto de Vasco Rato intitulado “A glória é fácil mas é efémera” e ainda uma pequena resposta a Rodrigo Moita de Deus. Mas primeiro VR, que a resposta é mais extensa:

1. É o milionésimo blogonauta que brinca com o nome do nosso blogue. Parabéns. Infelizmente esquecemo-nos de comprar um prémio. Não leve a mal;
2. Vejo que domina a literatura "neocon". Bem me parecia. Mas está no bom caminho ao defender a demissão do Rumsfeld. Sinto-me premiado nos meus esforços;
3. VR diz que eu não posso garantir que as coisas vão correr mal no Iraque. Ele acha que vão correr bem. Muito bem. O "achismo" é recíproco. Pergunta: qual é o prazo, então, que damos à realidade para ela nos dizer qual de nós está errado? Um ano, uma década, um século? Há meses que faço esta pergunta e ninguém me responde. Duas coisas lhe garanto: desejo ardentemente que tudo corra pelo melhor; se isso acontecer, serei o primeiro a assumir que errei. Mas, seja em que circunstância for, continuarei, sempre, a opor-me a guerras preventivas, como esta é. Abrem um precedente gravíssimo e legitimam até actos militares de ditaduras contra democracias.
4. Se o objectivo era somente democratizar (e não foi isso que nos disseram quando a invasão começou) então porque não começaram pela Coreia do Norte? Variante desta pergunta: se o problema é a democracia, então para quando a invasão da Arábia Saudita, da Síria, do Kuwait, etc, etc, etc? É essa a estratégia? Começaram por ali porquê?? Ah, já sei: a gasolina era mais barata!
5. VR pergunta e responde: "Quem é intelectualmente responsável pelo gulag de Estaline, as atrocidades de Trotski, ou os genocídios de Mao e Pol Pot? Não sou eu nem os "bushistas." Olhe, eu também não, que nunca andei nessas militâncias.
6. Qual a "crítica substantitva" aos "neocons"? Simples: dão substrato intelectual e até "moral" a uma operação que só visa alimentar a voracidade dos complexo industrial-militar dos EUA e ajudar a resolver uns problemas petrolíferos.
7. Mais uma pergunta que VR me dirige: “Se critica a estratégia ‘neocon’ de transformar o Médio Oriente, qual é a sua alternativa? A menos que “ache” também que tudo está - ou estava - óptimo na região.” Resposta: É pura perda de tempo estar a comentar situações que já pertencem ao passado. Ou quer discutir também o que deveria ter feito o Xá do Irão para evitar a ascensão do fundamentalismo? Ou o que deveria ter sido feito para evitar a escalada “talliban” no Afeganistão? Ou a sequência que Bush-pai deveria ter dado (e não deu) à 1ª guerra do Golfo? Não vale a pena. A situação é aquela que é. Defendo algo muito claro: será criminoso que os EUA fugam do Iraque e deixem as pontas todas soltas, mesmo que isso custe muito eleitoralmente ao sr. Bush.
8. Quanto a Rodrigo Moita de Deus, fiquei com a ideia (a partir do "ps") de que, apesar dos seus esclarecimentos, concorda comigo quando eu digo que não se pode invocar a caução moral e histórica de Churchill para legitimar esta guerra. Interpretei bem?
|| JPH, 12:32 || link || (0) comments |

sexta-feira, maio 7

Mar Salgado

O Mar Salgado faz hoje um ano. Foi sempre um dos blogues favoritos aqui da casa. Ao atencioso comandante Nuno Mota Pinto, que anda lá fora a lutar pela vida, e a toda a tripulação, votos de glória e bonança.
|| asl, 22:54 || link || (0) comments |

Lambchop

Motivos inadiáveis impedem-me de voltar a ouvir ao vivo a música de Nashville.
Agradeço à pessoa (não sei quem) que me enviou o bilhete esta semana
|| mjo, 19:51 || link || (0) comments |

"Morro, fiesta e electropunk"

Lisboa a abrir no "Tentaciones"
|| mjo, 13:44 || link || (0) comments |

quinta-feira, maio 6

Vigilância

Em homenagem ao dr. Freud, o meu super-ego exacerbou a sua vigilância. Oh, não posto mais nada tão cedo.
|| asl, 22:10 || link || (0) comments |

Os vómitos de Margarida Dutra

Margarida Dutra não é uma deprimida, só lhe dói o estômago; Margarida não chora, vomita. Margarida não toma alprazolan nem fluoxetina; engole omeprazol todas as manhãs, um ao pequeno-almoço.
John detesta esta ideia dos vómitos e com aquela ironia demolidora diz que sim, que pôr uma heroína a vomitar é apropriado em qualquer coisa que admita redundar num texto decente ou talvez amoroso. Que sim, que é brilhante, é bonito, diz e faz um trejeito de nojo.
Eu gosto que Margarida vomite, mesmo reconhecendo a fraca popularidade do vómito nos meios somático-intelectuais. Mas o que vomita, no momento em que vomita, intervala espasmos de alívio com um extremo desamparo. É assim Margarida Dutra, ou como eu a vejo.
|| asl, 16:31 || link || (0) comments |

Como é que hei-de dizer? Calhámos

Sim, Margarida nunca amou João Garcia. Um certo desvanecimento, pensamentos obsessivos, não fazem um amor. Mas podia tê-lo amado e essa falha não é culpa do Januário, ou essencialmente não é culpa do Januário.
Onde podia começar o amor e falhou, antes ou durante a carta que enfastia Margarida? Basta um sopro, um esgar, um erro de pontuação, uma desatenção distraída: são muito sensíveis os embriões do amor.
Cá uma simpatia… Como é que hei-dizer? Calhámos.Isto diz Margarida Dulmo a Corina Peters, negando o amor com João Garcia, na dificuldade de lhe explicar o que muito frágil e fugazmente os juntou. E depois não calhou bem.
(Agora, aqui sentada no Volga, um café da Horta que não vem nas rotas internacionais, mas fica na única rua da cidade – era Nemésio que dizia que a Horta era cidade de uma rua só – desfio parcelas do Mau Tempo no Canal a Margarida Dutra, forçando metáforas remotas que lhe sirvam, não de consolo, mas de variação. Falo ininterruptamente, o silêncio poderá atordoá-la. De quarto em quarto de hora, Margarida levanta-se e vai vomitar.
Eu faço hoje cinquenta anos e vim à Horta festejar-me e ver de longe o enterro do açoriano que amei).
|| asl, 11:04 || link || (0) comments |

quarta-feira, maio 5

A boçalidade está de volta (II)

Vasco Rato (VR) respondeu à minha tese sobre o regresso da boçalidade, dois posts abaixo. Saúdo - sem ironia nenhuma - o elevado nível da resposta (o qual, aliás, contrasta bastante com o texto de PPM intitulado "JPH ao espelho"). Mas vamos por partes:

1. VR reconhece ter aderido a uma "prática discursiva de simplificação e de clarificação". Digo-lhe que "simplificação" e "clarificação" não são sinónimos. Clarificar não significa simplificar ao ponto de afirmar - como o fez - que há quem, sendo contra a guerra, "chore lágrimas de crocodilo" pelas vítimas, milite no "quanto pior, melhor", "rejubile" com a morte de soldados da coligação, etc, etc. Isso não é simplificação; é desonestidade intelectual.

2. Estou cansado - e já o venho a dizer a algum tempo - dos argumentos que defendem a guerra no Iraque recorrendo sistematicamente ao truque de encostar os que se lhe opõem à condição de "terrorist lovers". Ou seja, o argumento bushiano do "either you're with us or you're with the terrorists". Eu não estou de nenhum desses lados. Estou do lado dos que acham que esta guerra não resolve coisa nenhuma, só agrava todos os problemas do Médio Oriente, que não combate terrorismo nenhum, além de ser profundamente ilegítima do ponto de vista da legalidade internacional (e isto para não falar das consequências no relacionamento Europa/EUA). Se os que ainda defendem a operação em curso pudessem admitir que há uma 3ª via entre os que apoiam Bush e a dupla Ossama/Saddam, eu agradecia. Reconheço em VR um esforço de sensatez ao dizer: "Eu sei 'que ser contra esta guerra não implica ser pelo terrorismo." No texto que deu origem à minha resposta isso não me parecia claro.

3. Quero com isto dizer que VR abriu assim uma porta à possibilidade do debate. Pelo menos, à possibilidade de uma conversa civilizada. Antes não era possível.

4. Quanto à manifestação do BE, o BE que se defenda. É óbvio que acho aquilo de uma cretinice total, mesmo com as explicações todas que o BE deu depois.

5. Processos de intenção: acusei VR de ter adoptado essa táctica. Na resposta, VR acusou-me do mesmo. Temos um empate. Mantenho-me na minha.

6. VR diz que não se inspira na "entourage" intelectual de Bush, antes "converge" com ela. Muito bem. But thats not the point. O ponto é que eu considero que eles encontram-se entre os principais responsáveis pela situação actual. Eles, eles e só eles. E não os que, no plano do debate de ideias, se opuseram à invasão. Esses, garanto-lhe, não têm culpa nenhuma. É bom que os "neo-cons" e os seus admiradores (mesmo aqueles "avant la lettre", como VR parece afirmar-se) tenham consciência da sua culpa.
|| JPH, 17:35 || link || (0) comments |

Churchill ou a falsificação da História

Uma das várias manias no debate sobre a guerra no Iraque é invocar, permanentemente, Winston Churchill como exemplo moral e histórico caucionador da acção dos EUA e dos seus aliados.

O argumentário vai sempre dar ao mesmo: Bush é comparável a Churchill na medida em que, quase sem apoio nenhum, contra ventos e marés, lidera uma nação inteira –perante a indiferença de grande parte do “seu” próprio mundo ocidental – no combate à barbárie.

A comparação esbarra, no entanto, num poderoso senão: a verdade histórica. Estivémos na invasão do Iraque perante uma evidente guerra preventiva (e isto penso que ninguém nega, da esquerda à direita). A resposta ao 11 de Setembro deu-se com a invasão do Afeganistão (para mim inteiramente legítima). A do Iraque já só teve lugar num quadro mental do género “vamos atacá-los a eles antes que nos ataquem a nós”, quadro mental esse que, aliás, naufragou por completo na não descoberta de ADM.

Guerra preventiva, portanto. E, sendo assim, pergunta-se: onde é que Churchill defendeu que o Reino Unido devia abrir guerra à Alemanha antes que a Alemanha o fizésse? Nunca (repito: NUNCA). Antes de a II Guerra, Churchill limitou-se a defender – perante uma trágica indiferença geral, como se sabe – que o seu país não devia ignorar o galopante rearmamento dos alemães. E defendeu que o seu país devia, assim, rearmar-se também, para com isso tentar dissuadir os alemães de aventuras bélicas.

Ou seja: nunca (repito: NUNCA) defendeu uma guerra preventiva. Não se invoque em vão o nome do senhor.
|| JPH, 15:38 || link || (2) comments |

terça-feira, maio 4

A boçalidade está de volta…

…à blogosfera, pela pena de Vasco Rato, que na TV até parece uma pessoa muito civilizada.

O conhecido pensador acha que os barnabés “sucumbem à lógica do quanto pior melhor"; que “rejubilam” com a morte de soldados norte-americanos; que “deitam foguetes” quando morrem civis iraquianos; e que, no fundo, “choram lágrimas de crocodilo” pelas vítimas da guerra “porque o mais importante é marcar pontos políticos”. Eu julgava, na minha infinita ingenuidade, que esta boçalidade argumentativa já estava em decadência na blogosfera. Enganei-me, claro.

A boçalidade caracteriza-se por recorrer sistematicamente a processos de intenção. Parte sempre do mesmo “axioma”: quem é contra a guerra é pelo terrorismo (em geral) e pelo Saddam (em particular). A partir daí, vale tudo: quem diz que as coisas estão a correr mal no Iraque “rejubila” com isso, “deita foguetes”, “chora lágrimas de crocodilo” pelas vítimas, vive, enfim, na “lógica do quanto pior melhor”.

É escusado explicar-lhes que ser contra esta guerra não implica ser pelo terrorismo (nem sequer implica ser pacifista, o que eu não sou). É escusado explicar-lhes porque receiam que só o acto de ouvir signifique ceder. Isto é, reconhecer pelo menos alguma razão a quem se opôs à guerra.

Ora isso é-lhes inadmissível. A guerra pode estar a ser perdida no terreno (ganha não está, de certeza); mas de modo algum pode ser perdida no espaço público. Encaram isso como o princípio do fim. Por outras palavras: o debate não é encarado como debate, é só mais um campo de batalha. A boçalidade argumentativa permite ainda aos seus autores manterem uma razoável dose de alheamento face a uma realidade no terreno que lhes é profundamente desconfortável porque, entre outros factores, sabem ser bastante responsáveis por ela.

É também própria de pensadores profundamente sectários ou mesmo totalitários. Foi desta massa que se moldaram em Portugal “verdades” do género “Tudo pela Nação, nada contra a Nação”. Também foi desta massa que se moldaram os argumentários que permitiram ao PCP andar décadas e décadas a afastar das suas fileiras todos os que tinham dúvidas sobre os “amanhãs que cantam” do outro lado do Muro. Qualquer sinal de diferença é imediatamente diabolizado. Com a diferença não se cohabita; a diferença elimina-se, expulsa-se, apaga-se, seja por que meio for – porque aqui os fins justificam os meios.

Há uma verdade incontornável: foram argumentários boçais deste genéro que criaram o caldo de cultura onde se forjou a actual situação no Iraque. A culpa não é, certamente, de Vasco Rato. Mas é certamente dos vascos ratos norte-americanos que constituem a “entourage” intelectual do sr. Bush. E que inspiram o nosso pensador.

PS – Já sei que alguém há-de dizer que este texto é uma “encomenda” do Barnabé, etc, etc, etc. Também esse argumento caracteriza a tal boçalidade.
|| JPH, 17:25 || link || (0) comments |

segunda-feira, maio 3

A “merda” na III República (5º e último episódio)

Mário Tomé (UDP) tinha terminado um discurso atacando Eanes (então PR) por este não “correr com a AD do poder”. A honra do Executivo foi defendida por Lemos Damião (PSD).

Data: 06 JAN 83
Presidente (Leonardo Ribeiro de Almeida, PSD): Para um protesto, tem a palavra o Sr. Deputado Lemos Damião.
Lemos Damião (PSD): - O meu protesto é no sentido de, em primeiro lugar, pedir ao Sr. Deputado Manuel Alegre para que, com o seu talento, se possível, nos seus momentos de ócio, de boa disposição, faça uns versinhos ao Sr. Deputado Tomé, porque ele, simbolizando, ao fim e ao cabo, o povo, requer uns versos que todos nós, com certo gáudio, poderíamos aceitar de V. Ex.ª. É pena que o Sr. Deputado Mário Tomé, em vez de se chamar Tomé, não tenha outro nome. Se se chamasse Lacerda, eu, que não tenho jeito, certamente teria facilidade em lhe fazer uns versos...
Mário Tomé (UDP): - Se é para o mandar à merda, eu mando-o!
(…)
Manuel Alegre (PS): - Peço a palavra, Sr. Presidente.
Presidente: - Para que efeito, Sr. Deputado?
Manuel Alegre (PS): - Sr. Presidente, é para, muito rapidamente, dizer ao Sr. Deputado Lemos Damião que eu não tenho vocação para o tipo de rima que me sugeriu, pelo que a deixo ao seu talento poético.
Aplausos do PS.
(…)
Mário Tomé (UDP): - Queria apenas lamentar que o PSD, a AD ou aquilo que dela resta ponham nas mãos do Sr. Deputado Lemos Damião a defesa da «honra do convento». De facto, nem sei o que hei-de responder...

E pronto, é tudo. Esta é toda a "merda" que consta nos Diários da Assembleia da República dos últimos 30 anos.
|| JPH, 16:45 || link || (0) comments |

A “merda” na III República (4)

Outra vez Francisco Sousa Tavares, novamente picado com o PCP. A “merda” parlamentar atingiu aqui o seu apogeu.

Data: 17 FEV 82
Presidente (Oliveira Dias, CDS): - Tem a palavra o Sr. Deputado Sousa Tavares.
Francisco Sousa Tavares (PSD): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Pretendo usar do direito de defesa, uma vez que fui atacado pessoalmente, aliás como é costume. Faço notar à Mesa, até ,porque já ontem se levantou aqui um incidente, que os Srs. Deputados do PCP usam permanentemente - uma linguagem de ofensa e de ataque pessoal inadmissível nesta Câmara.
Vozes do PCP: - Olha quem fala!
O Orador: - É muito mais ofensivo as expressões que usam e as indirectas do que mandar à merda uma pessoa. Isso não ofende ninguém, pois é uma expressão à antiga portuguesa de uma pessoa que está aborrecida. (…) Eu não insulto ninguém, eu nunca fui anticomunista primário. Eu colaborei com comunistas na luta antifascista. Como tal, não tolero que um badameco qualquer venha a esta Assembleia faltar-me ao respeito e chamar-me adjectivos.
(…)
Veiga de Oliveira (PCP): - Sr. Presidente, eu gostaria de saber se V. Ex.ª acha que é aceitável que um deputado chame a outro badameco.
(…)
Presidente: - Eu teria preferido que nenhum orador usasse expressões desse género. Teria preferido que o Sr. Deputado Sousa Tavares não as utilizasse.
(…)
Sousa Tavares (PSD): - O Sr. Presidente acha que chamar badameco é mais ou menos ofensivo do que chamar-me anticomunista primário e fura-greves, como aquele senhor me chamou? Eu não tenho a obrigação de ouvir estas expressões.
Aplausos do PSD, do CDS e do PPM.
Esses senhores não reconhecem as ofensas que fazem. A mim ofende-me muito mais isso do que chamarem-me badameco, que é o que ele é.
Carlos Espadinha (PCP): - Grande ordinário!
Sousa Tavares (PSD): - Penso que os critérios da Mesa devem ser critérios objectivos da opinião pública. É o peso, pejorativo ou não, que em termos de opinião pública tem a linguagem usada que devem ser os critérios da Mesa e não a interpretação de que cada um se socorre, ou seja, se badameco é mais ou menos insultuoso do que anticomunista primário ou se mandar à merda é mais ou menos insultuoso do que dizer “vá àquela parte”. Simplesmente, ou nós sabemos qual é o critério da Mesa ou então cada um de nós usará os seus critérios, e não sei onde é que chegaríamos.
(…)
Presidente: - Sr. Deputado Veiga de Oliveira, julgo que se lhe chamassem a si - e peço desculpa de pôr a questão nestes termos - qualquer coisa de «primário» e «fura-greves» naturalmente também se ofenderia.
Vozes de protesto do PCP.
Portanto, o que, quero dizer com isto é que a sensibilidade das pessoas às ofensas é respeitável. Agora o que eu desejaria é que a discussão aqui, em Plenário, fosse afirmativa e não descambasse, por emoção ou por entusiasmo, em frases e palavras que nos ofendem uns aos outros. É nesse sentido que faço um apelo, e tanto apelo para o Sr Deputado Sousa Tavares, para que não chame «badameco» ao Sr. Deputado Jorge Lemos, como apelo ao Sr. Deputado Jorge Lemos para que não chame «fura-greves» e não sei que mais ao Sr. Deputado Sousa Tavares.

A sessão foi suspensa. A "merda" só regressaria quase um ano depois.
|| JPH, 16:16 || link || (0) comments |

A “merda” na III República (3)

Desta vez os protagonistas são Francisco Sousa Tavares (na altura já deputado do PSD) e Jerónimo de Sousa (na altura, como hoje, deputado do PCP). O deputado comunista não reconhecia a Sousa Tavares pergaminhos na luta contra a “opressão”.

Data:04 JAN 82
O Sr. Presidente (Oliveira Dias, do CDS): - Tem a palavra o Sr. Deputado Jerónimo de Sousa.
O Sr. Jerónimo de Sousa (PCP): - Sr. Deputado Sousa Tavares, a sua voz grossa não me impressiona e, para o acalmar, devo dizer-lhe que sou capaz de falar mais grosso do que o senhor.
Aplausos do PCP.
O Sr. Sousa Tavares (PSD): - Idiota!
(…)
Jerónimo de Sousa: Enquanto o senhor [Sousa Tavares] tem a experiência que referiu, eu tenho a experiência de 15 anos de empresa, de fábrica, de exploração, cinco anos de Parlamento e nunca admiti que nenhum deputado, seja ele quem for, esteja a mandar «bocas» como o senhor. Fale mais vezes, se for necessário, e cale-se, porque não tem o direito de falar como o fez e ofender esta Assembleia.
Aplausos do PCP.
O Sr. Sousa Tavares (PSD): - Olhe, vá à merda! Idiota! Mandrião! Vá trabalhar, que foi aquilo que nunca fez na vida! Calaceiro!
O Sr. Presidente: -Srs. Deputados, agradecia que não se mandassem calar uns aos outros, porque, dentro dos limites do Regimento, todos os deputados têm direito a usar da palavra, inscrevendo-se para isso.
Está encerrado este incidente. Para uma declaração política, tem a palavra o Sr. Deputado Lemos Damião.
|| JPH, 15:43 || link || (2) comments |

A "merda" na III República (2)

Segundo o Diário da Assembleia da República, só voltamos a ter “merda” em 1980. O protagonista foi Francisco Sousa Tavares (que há-de reincidir, como veremos).

Data: 17 JAN 1980
Presidente (Leonardo Ribeiro de Almeida, do PSD): - Tem a palavra o Sr. Deputado Sousa Tavares.
O Sr. Sousa Tavares (Independente): - Sr. Presidente, Srs. Deputados, Sr. Primeiro-Ministro, Srs. Ministros: Chegámos ao fim desta discussão do Programa do Governo e hoje proceder-se-á à votação das moções de rejeição do Programa. Nada nesta discussão influiu na posição inicialmente tomada pelos Deputados Reformadores, pois consideram que o Programa apresentado a esta Assembleia constitui uma séria esperança no Governo, num sentido positivo e realista que urge à sociedade portuguesa adoptar o mais depressa possível. (…) Quando ontem o Sr. Ministro dos Assuntos Sociais revelou a esta Assembleia, com a crueldade e a crueza dos números, que cada português trabalhador pagava por ano 30000$ para a merda - desculpem-me a expressão- dos seguros sociais que nós temos, é evidente que isto levanta um problema nacional de primeira grandeza.

Não se ouviram reparos a Sousa Tavares. A seguir falou Mário Tomé (UDP). As “merdas” mais giras estão para chegar.
|| JPH, 15:25 || link || (0) comments |

A “merda” na III República (1)

Este fim de semana, em entrevista ao “Diário de Notícias”, Arnaldo de Matos, ex-líder do MRPP (e, nessa qualidade, ex-grande educador da classe operária) declarou, solene: “A esquerda é uma merda.

A afirmação, própria de quase todas as pessoas que há 30 anos foram da extrema-esquerda, tem uma virtualidade: recupera para o léxico político algo que já não víamos há muito: a “merda”.

Este é o pretexto ideal para o Glória Fácil dar a conhecer toda a “merda” que, após uma exaustiva investigação (aqui) de aproxidamente cinco minutos, encontramos no debate parlamentar da III República (a actual). Senão vejamos:

Data: 20 NOV 1975
O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Américo Duarte.
O Sr. Alfredo Cortês (PS): - Ó Américo tem juízo, olha o patrão Cunhal ...
O Sr. Américo Duarte (UDP): - Nestes últimos dias deram-se grandes acontecimentos.
A greve dos trabalhadores e operários da construção civil contra os salários de fome e a vida de miséria que atingiu cerca de 90 % de adesões em todo o País.
A forte e combativa manifestação popular que no domingo passado se realizou em Lisboa, apesar de os traidores cunhalista se tentarem aproveitar da energia revolucionária das massas populares para exigirem mais uns quantos ministérios.
Estas duas grandes lutas demonstram bem qual é o descontentamento popular face às contínuas e crescentes provocações do VI Governo Provisório.
O povo trabalhador de Portugal cada vez mais começa a perceber o carácter deste Governo.
Este Governo já não faz só leis antigreve, leis anti-informação como os anteriores; este Governo já não acusa apenas os revolucionários o os trabalhadores em luta de fazerem o jogo à reacção como todos os anteriores.
Este Governo é pior que isto tudo.
Este Governo declarou guerra ao povo!

(…)
Se há alguma coisa de inovador, é vermos um primeiro-ministro mandar à merda dezenas e dezenas de milhares de trabalhadores.
Uma voz: - Também lá estavas!
O Sr. Barbosa Gonçalves (PPD): - 0 que é que querias que ele dissesse quando tu e os teus lhe chamaram ditador, Pinochet e fascista?

A intervenção, que causou grande agitação no plenário, acabou com manifestações nas galerias. A seguir foi dada a palavra a Mota Pinto. Dentro em breve, mais "merda".
|| JPH, 15:03 || link || (0) comments |

domingo, maio 2

Para todas as mães

"E os filhos mergulham em escafandros no
interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados
nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida".

(excerto de "Fonte", de Herberto Hélder)
|| mjo, 20:40 || link || (0) comments |

sábado, maio 1

Lamento

Dia do Trabalhador?
Pois foi foi ...
|| mjo, 22:42 || link || (0) comments |