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quarta-feira, agosto 27

Aí vai ela

O Joel Neto foge da dramaturgia nacional (está certo, se não sabe do que fala é melhor calar-se) e desafia-me a comentar a classe teatral. Vamos por partes (prometo concisão):

1. Joel Neto fala na "fraquíssima qualidade de uma das mais débeis classes profissionais portuguesas". Não explica porquê, admitindo apenas que todos os actores acabam por ir parar às telenovelas (justificação redutora) e que só vê peças estrangeiras. Percebe-se a crítica, não? Joel Neto não vê teatro português, logo não pode julgar a qualidade dos actores.

2. Descobriu agora Harold Pinter, que os Artistas Unidos (AU) já encenam há mais de três anos. Muito bem. Agradece à companhia por lhe terem revelado o autor britânico, mas logo a seguir culpabiliza, uma vez mais, os actores pelo "calvário" do grupo. Caro Joel Neto, penso que terá acompanhado a saga dos AU através dos jornais, pelo que a redundante acusação que faz aos actores é dispensável. Foi através do seu belíssimo trabalho que pode agora ler Pinter em português (sim, as traduções foram feitas pelos actores); foi a partir do seu incansável empenho que os AU não acabaram. De "débil" o grupo não tem nada.

3. Acusa os actores de falta de versatilidade, se bem entendi, dividindo a classe entre os shakespearianos e os que fazem telenovelas. Felizmente, a classe é bem mais abrangente, algo que será fácil de constatar quando ficar a par do que vai acontecendo nos palcos portugueses.

4. Joel Neto considera que os actores que são "alguma coisa", não conseguem ser mais "coisa nenhuma", optando por (em busca de trabalho) ser "outra coisa". "No que borra a pintura toda", acrescenta. É verdade que a classe vive em compasso de espera, as propostas de trabalho nem sempre aparecem e, em alguns casos, os actores são obrigados a recorrer a outros cenários. Tudo isto é o resultado de uma série de factores (ausência de salas, de financiamento, etc). Não me parece que o facto de muitos encontrarem uma bóia de salvação na televisão deva ser objecto de crítica. Todos têm legitimidade para o fazer e, em muitos casos, defendem honestamente a sua profissão.
Portugal tem inúmeros actores que são muito mais do que "alguma coisa", que conseguem ainda ser mais "coisa alguma" e não se envergonham por ser "outra coisa".

|| Anônimo, 20:43

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